Histórias de Chongoene: Mamã Ana

Mamã Ana tem 37 anos e cinco filhos. É uma das mamãs de família que recebe ajuda do Projecto Um Pequeno Gesto. Mas nem com a ajuda preciosa da Irmã Aparecida a sua vida tem sido fácil. Quando o pai das crianças quis construir uma palhota, mandou as crianças apanhar o capim na hora da escola. Ana opôs-se lembrando que a Irmã Aparecida ensinava sempre como as crianças deviam ir à escola. O marido não gostou e bateu na mulher. Ana não desistiu e defendeu-se com uma panela de água a ferver. O hospital recebeu o marido e a cadeia a mulher. Cinco filhos foram deixados sem pai nem mãe e nem a intervenção das irmãs tirou Ana da cadeia.

Foi o regresso do marido a casa e a constatação que não podia nem sabia tomar conta das crianças que o fez retirar a queixa e deixou Mamã Ana voltar para casa. Hoje, Ana voltou a ser mãe de Laurentino (15), Tomás (13), Fenias (10), Lourenço (8), Flora (5). Todos os dias, Ana passa a manhã na machamba (horta) que fica “lá”, como diz, apontando para longe com o braço. A sua machamba fica a 1 hora de distância mas Mamã Ana não pode deixar de ir, para completar o arroz, amendoim, óleo e açúcar que recebe mensalmente da UPG. Para a água, a sua ajuda diária vem por vezes do filho mais velho Tomás. São mais de 30 minutos a andar até à nascente mais próxima (chalaza), mas mais tempo para voltar com o bidón de água na cabeça. No meio de todo este trabalho, foi com um sorriso que Ana nos recebeu na sua casa, ou antes no seu pátio. Ainda que sem aviso prévio, as crianças correram de imediato para trazer as duas únicas cadeiras de plástico da casa (e quem sabe das redondezas) para as visitas.

O espaço estava bem limpo e varrido e Ana conversou connosco sentada na esteira enquanto que Laurentino mamava do seu peito descoberto. Uma cortina tapa a entrada da porta da palhota onde fica com o marido já que a porta está caída mas ela “há-de arranjar”. Lourenço, que parece entender português melhor que a familía é quem nos leva pela mão ao interior da sua palhota quarto onde dorme com os quatro irmãos. Temos vergonha de invadir o seu espaço e abstemo-nos de tirar fotografias ao cubículo redondo de menos de 2 metros de diâmetro, apenas metade ocupada com 2 esteiras e 2 mantas. “E vocês dormem todos deste lado?”, “Sim…”. Saímos em silêncio e sei que fazemos uma nota mental do que acabámos de ver para não nos esquecermos nunca do motivo porque aqui andamos.

Flora, Lourenço e Tomás têm 3 padrinhos em Portugal. Um dos nomes dos padrinhos era mais fácil de decorar e foi o que todos recitaram, mas pacientemente repetimos os nomes portugueses que a memória ameaça. Só Flora já não responde e nem olha para nós. Recebeu umas sandálias da Mana Rita para manter o seu pé infectado longe da areia e já não vê ninguém. Com sorrisos na cara e olhos brilhantes ao verem a roupa nova, ensaiam nervosos uma mensagem para filmarem para os padrinhos.

Entre changana e português decidem que querem dizer todos ao mesmo tempo “Obrigado Padrinho!” mas como sempre acontece, o ensaio é melhor que o produto final. Mas não faz mal, os padrinhos ficarão contentes de saber a grande ajuda que são para a Ana e os seus cinco filhos!

One comment

  1. Olá sou uma das madrinhas (Teresa)da Flora, Lourenço e Tomás.Gostei de \”ouvir\” a sua história…Sempre q possivel tentaremos ajudar os nossos queridoas afilhados!Obrigada. Bjnhs a todos.

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