Apaixonei-me pela UPG… Por Mana Catia

Apaixonei-me pela UPG assim que descobri as suas primeiras fotografias… Quando vi a Ana João, o Samuel ou até mesmo a Raquel… nas distribuições ou no trabalho na Sala de Projeto desejei estar ali com eles e partilhar todo aquele mundo de dádivas, conhecer aquelas gentes e experimentar aqueles cheiros.

A certeza de África nasceu para mim quando tinha 16 anos – pela primeira vez percebi o que queria fazer da minha vida – ajudar os outros. Não foi fácil mas a verdade é que nunca pensei que pudesse tirar seis meses da minha vida para me dedicar àquilo em que realmente acredito – não somos nada uns sem os outros.
Trabalhar em Moçambique ainda me tem reforçado mais essa ideia. Aqui onde o coração mora na boca das pessoas, é mais fácil ser livre e viver sem medos de sermos iguais a nós próprios.

Confesso que a adaptação não foi fácil, esta realidade não tem nada a ver com a minha e viver tanta mudança de uma vez foi doloroso. Á medida que o tempo foi passando foi-me sendo mais fácil entender…

Trabalhar na UPG é entender um mundo inteiro de dádivas, generosidade e de sorrisos.
Claro que nem tudo são facilidades, a vida nem sempre é linear. A verdade é que Moçambique é um país em estado crítico a todos os níveis, a esperança média de vida são 47 anos, a maioria dos nossos meninos são órfãos de pai e de mãe por causa do HIV, a malária não mata muito mas deixa sempre a sua marca na vida desta gente.
E não pensem que é uma realidade que é só de alguns, afeta desde o mais pequeno ao maior, desde o mais pobre ao mais rico. 
É desesperante olhar para uma criança e saber à partida está condenada…
Aqui luta-se pela sobrevivência todos os dias e o nosso papel é reinventar soluções e alternativas…

Extraordinário é também este povo que apesar de todas as contrariedades tem sempre um sorriso nos lábios e umas palavras doces para nos dizerem.
Todas as manhãs sou recebida de braços abertos nas comunidades ou nas escolas.
Trabalho semana sim, semana não em duas escolas. Não imaginam a sensação que é chegar à segunda-feira e só ouvir dizer: “Mana Cátia, sentimos tanto a sua falta…” Até mesmo quando não se sabe falar português (aqui no Chokwé e Manjangue falam o Changana (dialeto)) há sempre uma saudação…

Estórias, há muitas estórias… difícil é para mim memorizá-las todas…
Lembro-me sempre mais as dos meninos com quem partilho a maior parte do meu tempo…
São sempre muito tímidos no início mas essa timidez desfaz-se a um sorriso meu… falam pouco mas comunicam através do seu olhar espelhado.

Conto-vos apenas uma estória, a estória dos dois meninos que estão comigo na foto e da vovó deles. O Elídio e o Nelson.
São os dois orfãos de pai e de mãe. Não se sabe do que morreram, apenas morreram os dois, e os filhos ficaram sozinhos.
Esta senhora que vêem na outra fotografia teve pena deles e cria-os numa casa feita de matope (barro) que está inclinada e que, segundo o Técnico da UPG, nas próximas épocas de chuvas vai cair. Vivem de quê? Vivem de uma pequena machamba que dá milho e outros legumes e da ajuda da UPG (uma cesta básica que é distribuída todos os meses às famílias apoiadas, com arroz, feijão, óleo, sabão, sal e açucar). A senhora já quase não tem força para trabalhar e são os dois pequenotes que vão ajudando no trabalho.

É uma coisa extraordinária, aqui as crianças ajudam em tudo. Assim que eu chego perguntam se eu preciso de ajuda.
Estão tão habituados a trabalhar que para eles qualquer actividade é uma diversão. São desenvoltos, muitas vezes os chinelos ou os sapatos estorvam e não servem para nada de tão calejados que estão os seus pés. Sinto-me maravilhada porque aqui não há frescuras, são autênticos filhos da mãe natureza, da Terra!

O trabalho com as crianças é sem dúvida o mais enriquecedor….
A menina que vêem comigo na fotografia é exemplo disso, chama-se Benina e  sempre que não tem aulas fica ao meu lado. Segue-me, não fala muito, mas anda sempre comigo como uma guardiã. Gosta da minha companhia e eu aprecio muito a dela. Daí nasce a cumplicidade. Eu sei que ela está ali e ela sabe que eu estou aqui…
E como vai ser quando eu for para outro lado?

É um dos contras do voluntariado de curta duração. Daqui a um mês e meio estou a mudar de sítio, de pessoas, de vida – vou para outro projeto em Chongoene.
E estas relações que construí até agora? O que se faz com tanto carinho e cumplicidade? Como é que eu vou viver sem ele depois disto?

Definitivamente há uma grande parte de mim que vai ficar aqui. Os meus diálogos nos chapas durante as viagens intermináveis com os companheiros locais, os sorrisos nem sempre fáceis de conquistar mas que por insitência teimam em aparecer nestas caras escuras e simples. As minhas viagens a pé, perdida nos caminhos do mato onde vou cumprimentando as pessoas dizendo as únicas palavras que aprendi no dialeto deles: “Lichili mamã”, “Lichili papá” e que muitas vezes são respondidos com um Bom Dia Mana Cátia…

Tem sido um desafio mas todos os dias desejo que o tempo pare para que possa aproveitar ao máximo esta oportunidade – trabalhar com as irmãs, com as crianças, com os professores, conhecer pessoas diferentes e aprender com elas coisas novas.

Sim, estou apaixonada por isto por esta magia da qual sempre ouvi falar mas que não tinha a certeza de existir.
Afinal, this is África…

Mana Cátia

One comment

  1. Olá amiga, espero que o calor de África e as suas pessoas completem o teu coração e te tornem numa pessoa ainda mais feliz. Isto porque, com certeza por esses lados já fizeste pular muitos corações de alegria. Parabéns e acredita que deste lado (por vezes desse) estamos a acompanhar-te. Beijos. Carolina Mendes

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