Mano Diogo e as visitas familiares

“Nesta semana tinha de fazer umas fichas individuais para os miúdos, só para sabermos algumas informações sobre a sua estrutura familiar e o seu progresso escolar. Fiquei chocado com a quantidade de crianças que não sabia sequer quantos anos tinha…

De facto, muitas delas nem estão registadas. São ninguém. Felizmente alguns tinham irmãos, primos ou vizinhos mais velhos que nos podiam dizer algumas coisas… Eu já sabia que a grande maioria deles era órfão de pai, mãe ou dos dois. Mas fui percebendo que ainda havia outra classe (talvez ainda pior); são os que não são órfãos, mas é como se fossem. Pais, mães ou irmãos mais velhos que fogem para a Africa do Sul à procura duma vida melhor e que deixam cá os pequenos com as avós (se ainda as tiverem). É grave. Esta estrutura familiar deficiente ajuda o abandono escolar, privando os miúdos de qualquer esperança de sair deste buraco, não há outra palavra.

Não são 3 ou 4 os que abandonam a escola para ir pastar cabritos ou vacas – é muito comum. A maior diferença que encontro entre um bom aluno daqui e outro europeu é que o moçambicano não teve ninguém a influencia-lo a estudar, a aprender. Tudo o que conquistou se deve ao seu trabalho e MUITO sacrifício. Eu sempre vivi numa cultura escolar e familiar em que era recompensado e confortado ao aprender. Quando me desmotivava, tinha colegas, professores e pais à minha volta a puxar a moral para cima e a dar-me vontade de querer continuar e não desistir.

Aqui não1 E olho com tristeza para todos os lugares nas universidades portuguesas ocupados por alunos que, por comparação, não os mereciam. Gostava de ganhar a lotaria para poder oferecer cursos em Portugal a alguns destes miúdos. Uns, já com vinte, como o meu amigo Joaquim e outros que apesar de terem apenas 8-12 anos sei que são brilhantes e mereciam ser acompanhados decentemente desde esta idade para não se perderem pelo caminho.

Um deles é o Santos. Está na 4ª classe e é muito esforçado, inteligente e trabalhador; fiz questão de ir visitar a sua família para lhes dizer isso mesmo. Fiquei muito contente quando a sua avó (o miúdo é órfão de mãe e pai) me disse que enquanto fosse viva ele não iria faltar à escola. Caso raro!”Mano Diogo

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