Um mês depois por Patrícia Mesquita

Pedimos à Patrícia um testemunho, não hesitou e enviou-nos estas sentidas palavras. Obrigada mana Patrícia.    

“Já falta menos de um mês para terminar esta experiência e tudo o que eu queria era poder ficar muito mais tempo. Não há experiência comparável a esta, de sairmos da nossa zona de conforto para um dos países mais pobres do mundo, onde tudo é diferente do que estamos habituados, mas esta diferença faz-nos crescer e olhar o mundo com outros olhos.

Estar aqui a conviver com a realidade do meio rural Moçambicano faz-nos repensar tudo, desde as nossas prioridades, à nossa postura para com a vida. Aqui não há stress – o que não se fizer hoje, faz-se tranquilamente amanhã. Aqui não há pobreza que não seja amparada pelo vizinho do lado. Não há dificuldade logística do dia-a-dia que desmotive e que lhes tire aquele sorriso contagiante na cara.Acima de tudo, aprendi que os Moçambicanos são uns lutadores. Desde as mamãs ou vovós já com muita idade que vão para a machamba sobre um sol insuportável e que não descansam um dia por semana, estão sempre no mercado a tentar vender os seus produtos por uma verdadeira ninharia. Às crianças que passam os seus dias livres de escola a vender na rua, quer seja a maçaroca assada ou os produtos da machamba.

À mulher em geral, que aqui tem que ser muitas vezes chefe da família, com 4, 5, 6 filhos a cargo,  a viver com pouco ou nada, mas mesmo assim passam o dia bem dispostas, acordando de madrugada, passando um dia inteiro sem comer e andar KMs sem fim para chegar a casa. E chegam a casa e não têm água, não têm luz, arriscam-se a ter a sua palhota alagada durante a noite caso chova, comem chima (farinha de milho cozinhada) todos os dias e são raros os dias em que até há feijão ou verduras para animar o estômago.

Fruta é muito cara e carne ou peixe são luxos raros na sua vida. Aos jovens lutadores que temos conhecido, muitos deles apoiados pela UPG, que acordam às 5h, vão para os seus trabalhos nas escolas, mais uma vez, muitos deles passando o dia sem comer, tendo que suportar os chapas (transporte local) a abarrotar, onde não nos conseguimos mexer sequer para tirar o dinheiro do bolso e ainda vão para as suas aulas à noite, lutar por um futuro melhor.


É….Aqui as coisas não são fáceis, mas são genuínas. São ao sabor do vento, são em sintonia com a natureza. E não há um dia que não se oiça uma história que não nos parta o coração, mas que ao mesmo tempo nos ensina a ter coragem e valorizar o que temos. Cada dia que passa estou mais grata à UPG pelo trabalho que aqui faz, por fazer tanta diferença no mundo de tantas crianças – quer seja garantindo-lhes a sua única refeição do dia, ou um apoio ao estudo que permite que a criança possa ultrapassar as suas dificuldades, ou a aprendizagem de um ofício que lhes vai servir de sustento digno para a vida.

Khanimambo UPG, por existirem e por serem tão guerreiros por este povo que tanto merece uma oportunidade.
Mana Patrícia Mesquita”

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