As vacas cá da terra

Também tem uma vaca em casa com o seu nome? Pois, aqui em Moçambique parece ser uma tradição! Cada vaca que nasce tem direito a ser “baptizada” com o nome de alguém. Engraçado, não? Aqui no Orfanato às vezes confundo-me quando estou perto das vacas. “Olha, lá vem a Paulinha!” Ainda penso duas vezes se quem vem é mesmo a vaca ou a Paulinha! 🙂 Em Moçambique ter uma vaca é um estatuto social, especialmente nas zonas rurais como o Chókwè ou Chiaquelane são. O gado é um bem precioso pois é o garante de alimento em caso de escassez de produto. Algumas vezes é possível extrair leite. Sim, algumas vezes apenas porque aqui o gado bovino é muito dado às magrezas! Devem ir muitas vezes ao Tallon! Mas, se ter animais em casa é sinal de uma boa posição social, não os ter significa que a pessoa é pobre. Infelizmente, apesar de existirem muitas vacas por estas bandas (assim como cabritos e galinhas), estas encontram-se nas mãos de poucas pessoas. Há dias morreu uma cabeça aqui no Orfanato.

Quando cheguei ao curral e vi uma vaca castanha clara deitada no chão, de olhos revirados e língua de fora, só me deu vontade de rir. É mórbido, eu sei, mas aquela imagem parecia tirada de um cartoon qualquer! Na realidade, a vaca além de já ser velhinha, estava doente há muito tempo. “Irmã, o que faço com a vaca?” – perguntei ao telefone à Irmã Isaura que se encontrava fora nesses dias. “Vou ligar ao veterinário e já lhe digo algo” – foi a resposta dela. Esperei e o telefone tocou: “É para queimar a vaca e enterrar os restos”. E assim se fez… ou quase! Fui comprar a gasolina e pedi para trazerem a vaca para um buraco na terra. Como já era tarde deixei a gasolina no Orfanato e segui para casa, dando ordens para que a vaca fosse queimada e depois enterrada… No dia seguinte cheguei ao Orfanato e perguntei pela pobre da vaca. “Está lá!” – respondeu o Vasco. Como já devem ter percebido, o “lá” é uma expressão muito utilizada por estas bandas. Como era um “lá” curto deduzi que a vaquita estava por perto. No caminho perguntei se a vaca tinha sido TODA queimada e a resposta foi uma engraçada “há-de ver com os seus olhos Mano Beto!”

O que será que tinha acontecido à vaca? Eu disse que ninguém podia cortar a carne porque a vaca morreu doente e tinham sido essas as ordens do veterinário. Para espanto meu lá estava a vaca: continuava deitada no chão, de olhos revirados e língua de fora mas, desta vez, ainda tive mais vontade de rir!!! A VACA NÃO TINHA PERNAS 😉 Estava sem as quatro pernas. Por momentos pensei “será que sem pernas a vaca arde melhor?!?!?!?” Claro que não! Durante a noite alguém veio e cortou cirurgicamente as quatro pernas. Garantiram-me que não tinha sido ninguém do Orfanato, mas sim alguém de fora.

Depois das gargalhadas por ver uma vaca sem pernas e supostamente queimada (porque razão 5 litros de gasolina só deram para chamuscar o rabo do bicho?) pedi aos meninos que estavam lá para informar os “ladrões” que se comessem aquela carne iam morrer tal e qual a vaca! Mais umas gargalhadas… umas graçolas com a vaquita e lá a levaram para outro sítio para ser devidamente enterrada! Estejas onde estiveres Vaca, nunca mais vou esquecer da cena… sem as pernas!   Alberto Chaves

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